Costurando a história
No tempo da minha mãe, hoje com 70 anos de idade, as
mulheres eram donas de casa. Trabalho não remunerado, que exigia total
comprometimento, manhãs, tardes e noites, além da capacidade de saber cozinhar,
lavar, passar, cuidar dos filhos e, em muitos casos, e foi o da minha mãe,
aguentar “as escapadas” e as agressões verbais e físicas do marido. Ah, e ainda,
precisavam complementar a renda familiar, porque naquela época também se
trabalhava muito e ganhava-se pouco. Minha mãe tinha por ofício a costura.
Ofício esse que vinha de sua tataravó, que havia passado para sua avó, para
suas filhas..., ou seja, uma herança feminina de família. Pois foi esse ofício
que garantiu à minha mãe dar o seu grito de basta. Lembro ter sido, por aquela mesma
época, que as mulheres deixaram de chorar em cima da louça e partiram para o
mercado de trabalho – pelo menos onde eu vivia foi nessa época que ocorreu. Os
passos ainda vacilantes, mas muito determinados, garantiram às mulheres o
mercado que têm hoje, apesar de ainda ser muito discriminatório e injusto financeiramente
para o gênero. Bem, mas é o que se tem por agora...
A separação de meus pais foi difícil, toda separação
machuca, e machuca a todos.
Mas foi o ofício de costureira, mesmo para uma mulher que
nunca havia trabalhado fora, “mal vista” devido à separação (sim, naqueles
tempos, a mulher separada era rebaixada de casta), que garantiu a comida na
mesa e um teto para mim e meu irmão. Além “dessas coisas básicas” também nos
permitiu continuarmos nos estudos, situação que minha mãe não abria mão. “Vocês
precisam estudar. Tu mais ainda, por ser mulher. Mulher não pode depender de
homem”.
E assim eu fui... Insistindo. Faculdade. Emprego. Casamento.
Filhos. Desemprego. Traição.
Como, diabos, eu me separo de um marido traidor, no meio
desse desemprego generalizado, garantindo uma vida digna para meus filhos, sem
saber absolutamente nada de costura?
Não que minha mãe não tenha tentado me ensinar. Ora se
tentou. “Se não precisar, ótimo. Mas se precisar e souber, aproveita”. Sábias
palavras. Por que eu não as ouvi também?
Bem, mas agora é enxugar as lágrimas, engolir a raiva e sair
pra comprar agulha e linha, nem que seja para costurar o trapo que estou.