A cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo…
Pouco falado, o suicídio na infância e adolescência tem crescido nos últimos anos.
Dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, revelam que de 2002 a 2012 houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 14 anos. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o aumento foi de 33,5%.
O Brasil é o quarto país latino-americano com o maior crescimento no número de suicídios e o oitavo do mundo em números absolutos de pessoas que tiram a própria vida (Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde - OMS).
Nos últimos anos, as taxas de tentativa de suicídio e suicídio consumado em jovens têm aumentado. O problema, muitas vezes, é omitido pelas famílias, pois, além da dor, vem carregado de culpa, vergonha e preconceito.
A formação da ideia de suicídio é comum na idade escolar e na adolescência; as tentativas dessa prática e a consumação da mesma aumentam com a idade, tornando-se comuns durante a adolescência.
Fatores desencadeantes: discussão com os pais, problemas escolares, perda de entes queridos e mudanças significativas na família.
O jovem entra no mundo através de profundas alterações no seu corpo, deixando para trás a infância; é lançado ao desconhecido, novas relações com os pais, com o grupo de iguais e com o mundo. Assim, é invadido por forte angústia, confusão e sentimentos de que ninguém o entende, que está só e que é incapaz de decidir corretamente seu futuro. Isso ocorre, principalmente, se o jovem estiver num grupo familiar também em crise, por separação dos pais, violência doméstica, alcoolismo ou doença mental de um dos pais, doença física ou morte...
- O que você está lendo?
- Espera, já falo com você.
O jovem que considera o suicídio a solução para seus problemas deve ser observado de perto, principalmente se estiver se sentindo só e desesperado, sofrendo a pressão de estressores ambientais, insinuando que é um fardo para os demais. Pode chegar a pensar que a sua morte é um alívio para todos...
- Então?
- Estou lendo uma pesquisa sobre suicídio na adolescência.
- Por?
- Por quê? Você não soube? Um colega da Vick se matou!
- Deus do céu. Quantos anos?
- Quatorze.
- Quatorze? O que passa na cabeça de uma criança de quatorze anos para cometer suicídio?
- É sobre isso que estou lendo... Vou fazer uma matéria.
- Matéria? Há. Ninguém publica matéria sobre suicidas...
- Por isso mesmo. Certos assuntos precisam deixar de ser proibidos e vir à tona, só assim poderemos discutir abertamente sobre a melhor maneira de tentar impedir que isso continue... E pelo que tenho lido, os números vêm aumentando assustadoramente.
- Como ela está?
- Quem?
- A Vick!
- Ah, imagina. Triste, abatida.
- Era um amigo chegado?
- O que isso importa? Era um colega, um conhecido, um vizinho, o cara ao lado... Uma criança de 14 anos se mata. Isso não te choca?
- Claro que sim, mas estava tentando dizer que seria bom se não fosse amigo tão próximo... só isso.
- Preciso falar com a família.
- Eles devem estar arrasados.
- É, a morte nunca é bem-vinda, ainda mais para uma criança, e desse jeito... tirando a própria vida.
- Não sei se seria um bom momento para falar com eles...
- Nunca vai ser um bom momento para falar sobre a perda de um filho.
- Estou tentando dizer que... dê um tempo. Só isso.
- Parece que o garoto era homossexual.
- Deus do céu... mais um motivo para você dar um tempo...
- Mais um tabu.
- E dos grandes.
II
- Olá Enrique.
- Está me vendo?
- Sim. Agora, sim. Como está?
- Você vai mesmo me ajudar?
- Claro. Claro que sim, é para isso que estou aqui. Podemos começar?
- Sim. Não.
- Sim ou não?
- Sim... Mas, antes quero saber uma coisa.
- Claro. Pode perguntar.
- Vai doer?
- Depende.
- De quê?
- De você.
III
- Então?
- Não quiseram falar comigo.
- Imaginei.
- Saco. Como as pessoas pretendem resolver questões sem conversar sobre elas?
- Quem sabe não queiram.
- Quem não vai querer saber sobre o porquê seu filho se matou?
- Quem não quer saber. Às vezes, simplesmente aceitar o que aconteceu, doa menos.
- Ah! Gente idiota.
- Eles?
- O que você quer dizer com isso? Que a idiota sou eu? Eu que quis consolá-los, mostrar sentimento pelo que ocorreu, saber como ajudar?
- Não estou dizendo que você é idiota, mas eles com certeza não são. Falando sério, você está sim fazendo o papel de idiota, achando-se a bondade em figura humana.
- Prepotente. Você está dizendo que sou prepotente?
- Não. Você está sendo prepotente, você não é.
- Como lidar com isso então, se as pessoas não falam comigo?
- Não é um assunto fácil de falar, de lidar, de viver.
- E nunca será se continuar no obscurantismo.
- Você está nervosa. Você sempre usa palavras difíceis quando está nervosa.
- Vê. Você me conhece. Você sabe o que se passa comigo. Se eu tentasse ou pensasse em me matar, você perceberia, tentaria me impedir...
- Não tentaria não... Melhor, tentaria sim. É isso que estou fazendo... Você poderia se afundar profissionalmente. Essa matéria que você queria fazer poderia te levar ao estresse, à frustação, e de novo à depressão...
- Queria não.
- O quê?
- Quero. O tempo do verbo está errado. Eu quero e vou fazer essa matéria.
- Ah, como você é difícil... Filha da puta, nem me escutou.
...
- Mãe, não!
- Vick, qual é o problema? Só quero saber mais sobre ele. Quem eram seus melhores amigos? Do que gostava...
- Mãe. Não!
- Que merda, Vick. Abre essa porta, garota...Que droga.
Continua...
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