domingo, 8 de dezembro de 2013


Morre alguém em mim
Estou há dias morrendo alguém em mim.
Como a um paciente terminal, o observo furtivamente vez e quando para não despertar questão.
Em minha garganta jaz agonizando um verbo que julguei eterno, e se era para sempre, quem acionou esse outro movimento?
Como velar um morto em silêncio?
Não quero me despedir assim.
Eu preciso de choro, de gritos e desespero, afinal, hoje morre alguém em mim.
E o que dizer para os amigos, vizinhos e parentes quando depois do luto me encontrarem com olhos de penar? Mentir? Dizer, não foi nada, é apenas mau sono de noites, acordada?
Não, não pode ser assim, meu morto vale bem mais que prantos e mentiras deslavadas.
Ele não era somente um pedaço, mas pele mesmo de mim. Muitas vezes foi minhas unhas e muitos e tantos outros sins e negações.
Junto com ele vai nossa história, e pouco, bem pouco vai sobrar pra mim.
Por isso meu morto é tão importante. Ao morrer ele, morro eu e morremos sós.

Entardecendo
Envelheci, envelheceu.
O sorriso é o mesmo, de nós dois.
Quando teu caminho, o meu percorreu
Fomos uma vida para todo o sempre e depois.
Houve discussões, breves e corriqueiras
Auxiliaram a sermos mais pacientes
Nunca palavras baixas ou grosseiras
Nem eu nem tu intencionávamos ser salientes.
Mesmo quando rio, sol e nuvem, não fomos metade
O teu olhar me serviu de guia
E o meu, o teu à deriva jamais deixou.
Por isso, injusta, agora, parece a idade                
Sabemos, quando sozinhos, que será, por enquanto é seria
O tempo se vai, mas para nós ainda não parou.

Amor de conto

Eu preciso falar de amor
Não o banal, mas o do que inspira poesia
Aquele dito sentimento maior
Que quando terno não se encerra em calmaria.


O quero em meus sonhos nas noites e de dia
Tem de ser o que forma lábios meia-lua
Não o da melancolia
Deve dar vontade de sempre repetir: És meu sou tua.

Vou de ele escrever um conto
O amor, às vezes, nos obriga à discrição
O meu será direto e enfático.

Por isso escreverei somente: Te amo e ponto
Se alguém tiver alguma objeção
Que procure um amor mais poético.

Que te sirva

Que te sirva
o ar que meu peito sufoca.
Que te sirva
o mar salgado que engulo,
para não vertê-lo em lástima.
Que te sirva
as palavras a ti não ditas
que vomito no estômago.
Que te sirva
minha mente que humilho
com ofensas malditas.
Que te sirva
minha ausência
no tempo que deveria ser nosso.
Que te sirva
cada lembrança de nós expulsa.
Que te sirva
meus olhos cerrados pra sempre.
Que te sirva
o chapéu.