Morre alguém em mim
Estou há
dias morrendo alguém em mim.
Como a um
paciente terminal, o observo furtivamente vez e quando para não despertar
questão.
Em minha
garganta jaz agonizando um verbo que julguei eterno, e se era para sempre, quem
acionou esse outro movimento?
Como velar
um morto em silêncio?
Não quero me
despedir assim.
Eu preciso
de choro, de gritos e desespero, afinal, hoje morre alguém em mim.
E o que
dizer para os amigos, vizinhos e parentes quando depois do luto me encontrarem
com olhos de penar? Mentir? Dizer, não foi nada, é apenas mau sono de noites,
acordada?
Não, não
pode ser assim, meu morto vale bem mais que prantos e mentiras deslavadas.
Ele não era
somente um pedaço, mas pele mesmo de mim. Muitas vezes foi minhas unhas e muitos
e tantos outros sins e negações.
Junto com
ele vai nossa história, e pouco, bem pouco vai sobrar pra mim.
Por isso meu
morto é tão importante. Ao morrer ele, morro eu e morremos sós.
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