quinta-feira, 7 de junho de 2012

Tique-taque
O cérebro lembra que é uma hora...
Os olhos enxergam duas...
Os ouvidos escutam três...
A boca grita quatro...
A língua mente que são cinco...
Os dentes dilaceram as pobres seis...
A garganta engole o sete...
O peito sufoca todas as oito...
As mãos resvalam pelas nove...
O estômago prende as indefesas dez...
As cadeiras rebolam ao passar pelas onze...
Os cabelos se espalham com a exatidão das doze...
Os pés cansam em cima das treze...
As unhas se agarram aos ponteiros das quatorze...
Os poros se banham antes das quinze...
O fígado bebe sozinho todas as dezesseis...
Os pelos levantam com a chegadas das dezessete...
As vísceras se livram das dezoito...
O sexo se expõe ao contato das dezenove...
O suor continua a escorrer, não, às vinte...
Os ossos gelam com a pressa das vinte e uma...
O corpo se contrai às vinte e duas...
O sangue mancha tudo às vinte e três...
O coração para às vinte e quatro em ponto.
Faltou corda neste relógio que só tu entendia.

sexta-feira, 1 de junho de 2012


Rastro humano
“Se vocês não sabem o que fazer com esta terra, devolvam-na para nós”. Esta frase está no portal da cidade Taquera do Riosul, no busto em homenagem àquele que foi responsável por impedir que Altemo, empresário inescrupuloso, continuasse importando lixo tóxico e escravizando pessoas.

quinta-feira, 31 de maio de 2012


A palavra chave
“Feliz do homem que não tem pecados e infeliz daquele que acredita nisso”.

_ Ódio. Esta é a palavra chave de hoje. O ódio fecha portas e é assim que eu quero o mundo hoje: fechado. Ao invés de saírem de casa vestindo suas roupinhas de bons ou maus, as pessoas deveriam fechar-se para balanço e chegar a única conclusão possível: falimos. Estamos falidos como raça, demos errado, acabou. Não acha, padre? Não, com certeza, não. O padre acredita num tal deus redentor. É engraçado como as pessoas gostam de se enganar. Idiotas.
_ Eu não posso obriga-lo a crer em Deus, mas minha fé me dá a certeza de que os homens são constituídos de amor e de que você não é exceção. Essa sua relutância não passa de uma defesa. Quando aceitar isso ficará livre desses seus sentimentos negativos para com os outros e para com você mesmo.
 _ Livre? Liberdade? (Risos). Ah, padre, você não sabe de nada, é tão burro quanto os outros. Um homem não pode ser livre sendo refém de sua covardia. Para viver se precisa de coragem e para morrer mais ainda. Eu estou preparado para os dois.
_ Você define sua valentia pelo que faz?
 _ Não, eu defino a sua covardia pelo que você não faz.  Se eu mudasse a palavra chave de hoje para medo, sabe qual seria sua reação, seu padreco de merda.
_ Ah...
_ Não responda, não é uma pergunta, é uma constatação. Você, se hoje eu te provocasse medo, sairia muito puto da vida, cheio de raiva e me praguejaria até dormir em seus lençóis cheirando a vinho e encerraria sua raiva em cápsulas de câncer. De manhã sentiria o gosto de pus na sua boca, mas se rejubilaria por ter enfrentado a sua ira sem contestar em nome da glória de um deus que você nunca vai conhecer, mesmo depois de definhar de dor em uma cama qualquer.
...Continuação
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Cavalos invisíveis
Todos que passam pelo inferno trazem consigo um demônio.
Ligia de Beatriz

Não lembro quando começou a minha amizade com Troe. Sei que nascemos no mesmo hospital – era o único da cidade -, com dois dias de diferença. Ele nasceu primeiro, o que lhe deu direitos de mais velho, em brincadeiras e em assuntos sérios também. Tínhamos mães e pais diferentes, mas éramos irmãos, irmãos de verdade, até bem parecidos. Estávamos sempre juntos. Jogávamos bola no mesmo time. Brigávamos juntos... batíamos e apanhávamos juntos. A vida dele era uma merda, a minha também.  O pai dele não trabalhava, passava o dia bebendo e se drogando num bar na esquina da Vila onde morávamos; voltava pra casa junto da mãe de Troe quando essa chegava do trabalho. Ela vinha com uma sacola com pães e outras coisas pra eles comerem. Eram seis na casa do Troe: ele, o seu Valdomiro, a Dona Joana, a mãe da Dona Joana e dois irmãos mais velhos, a Teresa e o Jonas. Eu não gostava deles o suficiente pra conhecê-los melhor, foram embora cedo de casa. O Jonas foi pra cadeia, logo que completou a maioridade, não que não tivesse tentado antes, mas não dava por causa da lei, dizem que matou uns caras, se meteu com gente ruim, e a Teresa, que tinha uns 14 anos de idade na época, foi servir de doméstica e passou a morar no emprego. Nunca mais a vi, nem eles a viram. Ninguém se importou.
O Valdomiro mesmo bêbado tava sempre pronto pra bater em todo mundo, todos os dias. A família toda apanhava, todo dia. Eu e minha mãe, assim como toda a vizinhança, ouvíamos os gritos, mas se meter de que jeito? Não adiantava, não. No outro dia, dona Joana ia trabalhar toda estropiada.  Minha mãe dizia que aquilo era caso de polícia e se acaso a polícia um dia fosse lá, a coisa ia mudar. Enquanto isso não acontecia, quem podia ficava mudo e o resto corria.
Eu tinha mais sorte com a minha mãe, era só eu e ela. A casa era apertada por causa de todos os sonhos dela, minha mãe tinha sonhos muito grandes. “Um dia você vai ser doutor e nos tirar daqui. É pra isso que tu estuda.” Nessa época eu ainda ia à escola, tinha sete anos, larguei tudo com nove.
Toda vez que Troe chegava machucado ele me contava uma história... Com o tempo passei a fazer parte delas. Éramos dois cavaleiros, cada um de nós tinha um cavalo, o meu era Brazão e o do Troe o Zeno. Tínhamos até um exército.
“Estava cavalgando, sentindo o sol no rosto quando ouvi gritos. Peguei o Zeno e cavalgamos de encontro ao perigo. Não estávamos preparados, o inimigo já nos esperava, me derrubou do cavalo e eu com o tombo quebrei meu braço.”
As mentiras eram fantasiosas, mas a valentia dele não. Quanto pior a surra mais irado ele ficava. Um dia encilhei meu Brazão e fui até lá ajuda-lo... foi uma das vezes que lembro de minha mãe ter ficado muito brava comigo.
Ser cavaleiro não é fácil. Como dizia Troe: Essa aventura é pra poucos. E era só pra nós dois.
...Continuação
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Os seis fantasmas


A sensação de culpa é uma das portas pela qual os fantasmas têm livre acesso.

                         À noite seu sono é invadido
Alguém toca sua mão, é uma mãozinha pequena e fria, gelada, sente um arrepio, puxa seu braço para que sua mão não seja mais atingida. Olha pra baixo, vê um rostinho meigo, olhos assustados, mas bonitos. Tem algo errado. Olha o rastro da criança, tem sangue, um rastro grosso de sangue. Pressente. A criança não está inteira, rasteja só com o dorso do corpinho. Pede a mão de Marcelo para que este a ajude a caminhar. Ele estremece, a repele. Ela insiste, o chama de pai e pede sua ajuda de novo. Ele tenta fugir, escorrega no sangue. A sala está toda ensanguentada com rastros viscosos como a que as lesmas deixam pelo caminho por onde passam. Ele sente as mãos sujas, sente cheiro de fezes, vômito. Tenta se levantar, as pernas cambaleiam obrigando as mãos a ajudar e de novo se afundam em uma gosma densa e mal cheirosa. A garotinha se aproxima por trás, tenta abraçá-lo. Ele de novo a repele, grita e acorda. 
...Continuação
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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Hoje estou
Tuas letras em meu passado
Tem um belo traçado.
Pontos seguros
Colocados no lugar certo.
Reviso rascunhos tão bem escritos,
Não consigo parar de ler.
Quem foi tu quando fui eu?
Difícil saber.
Apagar por que
Um presente sem ti,
Se agora escrevo
Um futuro pra mim?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Você crê?

_ Groc... Você acredita na existência dele?
_ Grac...Não.
_ Então, por que, todos os dias viemos aqui...groc?
_ Porque aqui é calmo...grac.
_ Lá na vila, na casa da maldita, também é calmo...groc.
_ Não tanto quanto aqui...grac.
_ Groc...Por que você gosta do silêncio?
_ Grac...Por que você não gosta?
_ O olhar dele me perturba...groc.
_ Não olhe...grac.
_ Groc... Gostaria de saber, se ele existe ou não.
_ Existe...grac.
_ Você me disse que não acreditava nele...groc.
_ Grac... E daí? Isso não impede que ele exista.
_ Se ele existe, devíamos crer nele...groc.
_ Você pode acreditar, se quiser...grac.
_ Groc... Não será perda de tempo?
_ Groc... Você me escutou?
_ Reze ... grac.
_ Como faço isso... groc.
_ Repita aquele tal de pai nosso... grac.
_ Pai nosso que estais no céu...groc...Esse tal de pai nosso, é nosso pai também?
_ Claro...grac...é o pai de todos. Continua...grac.
_ Santificado seja o vosso nome...groc... O que é santificado?
_ Quem usa roupa preta...grac.
_ Então somos santificados...groc?
_ Groc... Qual é o nome dele?
_ De quem...? grac.
_ Do pai de todos...groc.
_ Pai de todos...grac.
_ Não tem um nome específico...? groc.
_ Grraac... O que você entende disso? O que interessa o nome do homem? Todo mundo chama ele de pai de todos, e você também vai chamar, e pronto. Grac.
_ Venha a nós, ao vosso reino.
_ Grac... Por que você parou?
_ Estou esperando ele vir. groc...
_ Ele não vai vir aqui...grrraaaccc...
_ Então, por que você mandou eu chamá-lo? golc...
_ Eu mandei você rezar, grrac...para parar de me chatear, grrraac... mas não adiantou nada. grrrrraaaacccc.
_ Goc...Por que será...que...essa...oração diz: Venha a nós, ao vosso reino, se ele não vem?
_ Graccc... Porque ele já está aqui.
_ Groc...Groc...Groc... Aonde? Aonde? Groc... Groc...
_ Calma. Dizem que ele é onipresente, oniciente, onipotente. Está em todos os lugares. Tudo sabe. Tudo pode. Grac.
_ Seja feita vossa vontade. groc... Qual será a vontade dele?
_ Deve ser a mesma minha...grac...Que você cale o bico...grac.
_ Assim na terra como no céu...groc...groc...groc...
_ Groc...groc...groc...
_ Graaac...Pense mais baixo.
_ O pão nosso de cada dia, nos dai hoje...groc...Hoje é dia dele dar o pão?
_ Groc...Será que ele vai dar o pão para nós?
_ Você gosta, tanto assim de pão? gracccc
_ Não. Mas se ele vai dar, bem podia dar para nós também...groc.
_ Eu peço um para você, quando ele estiver ofertando o pão...graaaac.
_ Promete? groc.
_ Prometo! garrc.
_ Perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...groc...groc...Isso significa, que para ser perdoado por minhas ofensas, terei que perdoar quem me ofendeu? groc.
_ Não. grac.
_ Ainda bem...E, não nos deixei cair em tentação... groc...O que é tentação?
_ A vontade que estou de te matar. grrrrrraaaaacccccc.
Groc... grac...groc...grac...grac...graccc....groccccc.
groc...grac...grac..graccc....groccccc.....
_ Sacristão! Sacristãoooo!
_ Sim, senhor. O senhor me chamou?
_ Quantas vezes, eu disse para você fechar aquelas janelas? Todo dia, preciso espantar esses corvos daqui do altar.
_ Sim, senhor. Desculpe, já vou fechá-las.
 Será que ela já parou para observar o teu semblante enquanto dormes?
Já tocou teu corpo mansamente com medo de acordar-te?
Ah, meu Deus, será que ela já tentou roubar-te o cheiro
e depois em desespero devolver-te o próprio ar?
Será que suas mãos percorreram-te por inteiro, dos dedos até os cabelos, sem se preocupar em demorar?
Ela já procurou a tua boca passeando por teu pelos?
E tu, já parastes, depois de exausto a admirar o reflexo dos teus olhos no suor do corpo dela?
Ah, bate o desespero só em pensar que na madrugada tu te entregues totalmente com medo de perdê-la.
Temo que em uma manhã ao acordar, mesmo procurando os meus espaços, tu venhas a te condenar.
O que farei nessa hora?
Chorarei em desespero?
Não. Provavelmente já perdida, te enlace e repousando tua cabeça nos meus seios te diga calmamente...foi só um pesadelo!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Apresentação

Em primeiro lugar, minha mãe não se chama Eva. Aqui me apresento como filha de Eva por considerar esse o nome da suposta primeira mulher na história da existência humana e por conseguinte a que me/nos pariu. Não tem nada a ver com religião, mas com as dúvidas simbólicas que o nome envolve: Ela existiu? Partiu da costela de um homem? O atraiu ao pecado? Pecou? Quanto aos filhos, não os soube amar igual? Como suportou a dor da perda? Conheceu o paraíso? Sobreviveu à falta dele? Essas questões são a própria história de Eva e histórias é o que gosto de escrever para existir. A filha nada mais procura do que apaziguar em si as dúvidas que carrega da mãe.