quinta-feira, 31 de maio de 2012


Cavalos invisíveis
Todos que passam pelo inferno trazem consigo um demônio.
Ligia de Beatriz

Não lembro quando começou a minha amizade com Troe. Sei que nascemos no mesmo hospital – era o único da cidade -, com dois dias de diferença. Ele nasceu primeiro, o que lhe deu direitos de mais velho, em brincadeiras e em assuntos sérios também. Tínhamos mães e pais diferentes, mas éramos irmãos, irmãos de verdade, até bem parecidos. Estávamos sempre juntos. Jogávamos bola no mesmo time. Brigávamos juntos... batíamos e apanhávamos juntos. A vida dele era uma merda, a minha também.  O pai dele não trabalhava, passava o dia bebendo e se drogando num bar na esquina da Vila onde morávamos; voltava pra casa junto da mãe de Troe quando essa chegava do trabalho. Ela vinha com uma sacola com pães e outras coisas pra eles comerem. Eram seis na casa do Troe: ele, o seu Valdomiro, a Dona Joana, a mãe da Dona Joana e dois irmãos mais velhos, a Teresa e o Jonas. Eu não gostava deles o suficiente pra conhecê-los melhor, foram embora cedo de casa. O Jonas foi pra cadeia, logo que completou a maioridade, não que não tivesse tentado antes, mas não dava por causa da lei, dizem que matou uns caras, se meteu com gente ruim, e a Teresa, que tinha uns 14 anos de idade na época, foi servir de doméstica e passou a morar no emprego. Nunca mais a vi, nem eles a viram. Ninguém se importou.
O Valdomiro mesmo bêbado tava sempre pronto pra bater em todo mundo, todos os dias. A família toda apanhava, todo dia. Eu e minha mãe, assim como toda a vizinhança, ouvíamos os gritos, mas se meter de que jeito? Não adiantava, não. No outro dia, dona Joana ia trabalhar toda estropiada.  Minha mãe dizia que aquilo era caso de polícia e se acaso a polícia um dia fosse lá, a coisa ia mudar. Enquanto isso não acontecia, quem podia ficava mudo e o resto corria.
Eu tinha mais sorte com a minha mãe, era só eu e ela. A casa era apertada por causa de todos os sonhos dela, minha mãe tinha sonhos muito grandes. “Um dia você vai ser doutor e nos tirar daqui. É pra isso que tu estuda.” Nessa época eu ainda ia à escola, tinha sete anos, larguei tudo com nove.
Toda vez que Troe chegava machucado ele me contava uma história... Com o tempo passei a fazer parte delas. Éramos dois cavaleiros, cada um de nós tinha um cavalo, o meu era Brazão e o do Troe o Zeno. Tínhamos até um exército.
“Estava cavalgando, sentindo o sol no rosto quando ouvi gritos. Peguei o Zeno e cavalgamos de encontro ao perigo. Não estávamos preparados, o inimigo já nos esperava, me derrubou do cavalo e eu com o tombo quebrei meu braço.”
As mentiras eram fantasiosas, mas a valentia dele não. Quanto pior a surra mais irado ele ficava. Um dia encilhei meu Brazão e fui até lá ajuda-lo... foi uma das vezes que lembro de minha mãe ter ficado muito brava comigo.
Ser cavaleiro não é fácil. Como dizia Troe: Essa aventura é pra poucos. E era só pra nós dois.
...Continuação
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